22/11/2021 às 09h50min - Atualizada em 22/11/2021 às 09h50min

A Moralista

Aninha, a moralista, caminhava rapidamente pela calçada, porque obviamente calçada era o lugar de pedestre caminhar, não na rua, como faziam algumas pessoas ignorantes que não percebiam o risco que colocavam a si mesmos e a outros, em suas loucuras “cidadânicas”. A caminhada era rápida, porque Aninha, a moralista, sabia muito bem que não se devia “tartarugar” ao caminhar no meio de outras pessoas, pois ali talvez estivesse  alguém com necessidade de chegar a certo lugar e poreria ser atrapalhada por alguém que ficasse andando lentamente na sua frente.
Chegou até a faixa de pedestre para atravessar a rua, pois não há outro lugar correto para qualquer travessia de rua, caso uma pessoa queira ser respeitosa com as leis de trânsito, claro, porque do contrário, quando não se tem respeito com as normas de trânsito - que foram criadas por pessoas competentes - que estudaram por muito tempo para definir onde seria o melhor lugar para se atravessar uma rua com segurança. Quando não se dá a mínima pelo esforço alheio, esforço de organizar uma sociedade decente, aí se atravessa a rua em qualquer lugar mesmo.
Algumas nuvens prometem chuva.
Olhou para ambos os lados, mesmo sendo a travessia feita na faixa, visto que não é porque a pessoa vai seguir as regras e atravessar na faixa, que todas as pessoas à sua volta farão o mesmo. Tem muito motorista abusado que não respeita as faixas de pedestres, obviamente porque estar dentro de um carro em segurança é muito mais confortável e muito menos arriscado do que uma pessoa que está a pé, então certas pessoas não dão a mínima para os que estão caminhando, passando sem nenhum receio pela faixa, onde a preferência é de quem está se deslocando a pé.
Começa a cair uma leve chuva.
Sentindo segurança para atravessar, Aninha, a moralista, iniciou a movimentação dos seus passos, adaptando o ritmo da sua caminhada às pessoas ao redor, porque não queria causar nenhum transtorno a ninguém, quando notou, pela visão periférica, uma lata de refrigerante abandonada na beira da sarjeta.
A chuva aumenta.
É inacreditável como têm seres humanos tão tóxicos, literalmente, a ponto de envenenar a natureza com os seus lixos, frutos da vida desenfreada de consumo de produtos e substâncias perigosíssimas. O que passa na cabeça de uma pessoa que joga a lata de refrigerante no meio da rua? Será que não percebe o mal que causará à natureza? Ou mesmo à própria sociedade em que vive, já que essa lata provavelmente vai entupir a boca de lobo do bueiro, causando grandes enchentes, alagamentos, enfim, prejuízos? Isso com certeza é coisa desses descendentes de europeus mimados.
Ela termina a travessia da faixa, passa sobre a lata, que já boia sobre a poça de água que vai se formando, sobe na outra calçada e continua sua caminhada rápida, para não atrapalhar a vida de ninguém, observando cada detalhe das pessoas e coisas à sua volta, pensando no quanto as pessoas são hipócritas e deixam de ser elas mesmas. Aninha (a própria), a moralista, chega na sua casa, passa pela porta da sala para adentrar, joga a bolsa de couro animal em cima da mesinha de centro, a qual se abre e é possível ver a carteira de identidade de Anastácia Shwanz da Silva, saca o celular, grita para a empregada preparar um chocolate quente com leite em pó, senta no sofá e faz o login no seu perfil fake para dar uma espiada em como estão as coisas no facebook.
A chuva já está bem forte.
Do olhar atento de Aninha, nada escapa. Do seu raciocínio ligeiro nasce centenas de reflexões filosóficas, argumentos bombásticos e críticas bem elaboradas.
A enxurrada na rua derruba a lata no bueiro.
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JEFFERSON FARIA

JEFFERSON FARIA

Um realista esperançoso e acadêmico de direito

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