25/10/2021 às 09h37min - Atualizada em 25/10/2021 às 09h37min

​ESCAPE

Jefferson Faria

A nave espacial viajava muito rápido, fazendo um barulho estridente ao cortar aquela região do espaço, com pequenos pedregulhos espaciais esfacelando-se ao redor do grosso vidro frontal. Não dava para saber se era noite ou dia, naquela altura da viagem, tudo já era confuso e de difícil cálculo. As pedras castigavam a fuselagem da aeronave que avançava bravamente. Do rádio piscavam algumas luzes, mas estava mudo, contrastando com o ruído que se percebia do lado de fora.
 
A visão do universo, tão aberto assim, era linda. Dava para se impressionar e ao mesmo tempo sentir-se tão minúsculo, ante aquela grandiosidade que se estendia à frente. Tudo era interessante, misterioso e incrível, cada pequeno detalhe que o olho captava, era motivo de admiração. O brilho ao longe tinha de fundo uma negritude estonteante, enquanto vários corpos celestes se esparramavam para todos os lados. O espaço era muito maior do que se podia observar da Terra.
 O painel de controle vibrou, ao mesmo tempo que um chiado saiu através do autofalante do rádio:
  • Câmbio...MHP para LVP – o chiado saiu mais forte que a voz – MHP para LVP, alguém na escuta? Sobressaltado com o som repentino, agucei os ouvidos para tentar entender melhor:
 
  • guém na escut...bzzzzzz
 
Era provavelmente alguém da Monument Hiago Parts, uma empresa de tecnologia que lançara, há alguns meses, duas naves exploratórias naquele mesmo sentido, com o objetivo de investigar alguns sinais de rádio detectados por alguns satélites, sinais que após algumas análises, foi concluído que se tratava de ondas de rádio não terrestres. As aeronaves pararam de emitir a localização há cerca de 100 dias, quando foi determinado então uma nova excursão espacial para localizar e investigar o ocorrido com as naves. 
A nova excursão era tripulada por três astronautas pilotos, um médico e um mecânico. O barulho no rádio aumentou e eu tive que retirar um dos lados do grande fone para receber menos carga sonora nos ouvidos: 
- guém na escut...bzzzzzz...bzzzZZZZZZZ MHP PARA LVP CÂMBIO! 
Os astronautas que pilotavam a nave, apertaram alguns botões, na tentativa vã de sintonizar melhor aquele rádio que tanto barulho fazia, mas que era inútil naquela condição. O som foi aumentando exponencialmente, trazendo um enorme desconforto no ouvido, ao mesmo tempo que uma enorme pedra colidiu com a parte frontal da aeronave, quase derrubando todos dos seus assentos e tirando a nave alguns graus fora da rota.
O piloto que comandava a missão, levantou a mão direita e fechou os punhos, num sinal de alerta para todos e mal ele baixou o braço, o som do rádio parou repentinamente e a nave parece que congelou no tempo. Um silêncio total envolveu o ambiente e foi possível ver uma sombra deslizar de fora para dentro da aeronave, apenas uma sombra disforme, mas de uma maneira sorrateira e nitidamente inteligente. 
A sombra entrou por completo e se arrastou em direção ao comandante, como se ela soubesse que aquele era o cérebro que dirigia aquela operação, chegou bem próximo a ele e parou, fixa e sem nenhum movimento, como se fosse uma mancha escura no assoalho da nave. Era possível ver os olhos arregalados do piloto, quando num impulso louco, pisou com sua bota siliconada na beira daquela sombra/mancha. 
O que aconteceu a seguir, foi uma estonteante cena de terror que deixaria qualquer um paralisado, pois a sombra subiu do chão, envolvendo o comandante completamente, numa velocidade e numa destreza impressionante, e foi sufocando ele, se apertando contra o seu corpo, quando num estrondo molhado, como quando cai uma melancia no chão a cabeça do piloto simplesmente explodiu, banhando todo o painel de controle da aeronave com sangue e pedaço do cérebro dele, o que causou um curto circuito instantâneo. 
Diante de algo tão macabro e atroz, os outros tripulantes imediatamente se puseram a gritar, mas até os gritos pareciam congelados, sufocados, enquanto a sombra tomava uma forma parecida com uma pessoa, mas com uma cabeça completamente coberta por ossos pontudos como lança, e dois olhos avermelhados e maliciosos como quem saboreava todo aquele pavor que causava. 
Aquela coisa completamente estranha avançou calmamente para o médico, que levantou os braços intuitivamente para se proteger, o que foi completamente inútil, pois antes mesmo de os braços chegarem em cima, foi possível ver a cabeça dele se descolando do pescoço, onde um daqueles pontudos ossos acertara.
 Uma quantidade bizarra de sangue já tinha sujado completamente o chão e parte da fuselagem interna da aeronave, então, tive certeza naquele momento, que todos ali morreriam, sem nenhuma chance de defesa. Foi então que, já sem paciência, ajeitei o fone, apertei a tecla ESC e pulei aquele filme introdutório sangrento, indo direto para a parte em que eu pudesse iniciar logo a primeira fase do jogo.
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JEFFERSON FARIA

JEFFERSON FARIA

Um realista esperançoso e acadêmico de direito

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