27/09/2021 às 13h23min - Atualizada em 27/09/2021 às 13h23min

SATISFAÇÃO

FALA, MEU POETA

Satisfação
Já passava das dezesseis horas quando a moça sorridente adentrou no hall do edifício, olhando rapidamente à sua volta, tentando identificar pelas plaquinhas, onde era agora a secretaria. O edifício pomposo comportava o “Universo para Ensino de Suprema Capacitação”, onde a moça estudava há alguns anos. O nome da moça era Paula, e era visível a ansiedade com que ela caminhava.
Ao encontrar a Secretaria, Paula cumprimentou a atendente que lhe dirigiu um “boa tarde” sem muita empolgação, erguendo os olhos em sua direção:
  • Como posso te ajudar? – perguntou então.
  • Meu nome é Paula, e vim fazer a renegociação semestral – respondeu de maneira tímida, embora continuasse sorrindo.
A atendente então se levantou abruptamente e pediu para que Paula lhe seguisse, indo em direção a um corredor cheio de portas e mal iluminado. No fim do corredor, a atendente abriu uma porta e anunciou:
 
  • Ivanete! Renegociação – as palavras foram ditas quase gritadas, o que assustou a Ivanete.
  • Misericórdia Anny, quase me mata do coração – respondeu Ivanete sobressaltada.
Paula entrou pela porta e olhou o interior da sala, notando certa melhora na luminosidade. Uma mesa grande ao centro e algumas mesas com cadeiras encostadas próximas à parede. Ivanete então se voltou para ela:
  • Qual seu nome querida? – perguntou enquanto puxava de uma gaveta, algum tipo de lista.
  • Paula Oryettnom – disse apressada – me inscrevi para as dezesseis e trinta.
Paula estava nervosa, com ansiedade brotando dos poros, pois estava na frente da mulher que liderava aquela instituição tão respeitada, que se destacou nos tabloides pela sua extrema competência em administrar aquele lugar.
  • Paula né? Tudo bem, senta nessa baia aqui, por favor – Ivanete guiou-a até uma pequena escrivaninha, puxando a cadeira para ela sentar.
Ivanete trouxe para ela uma folha de papel em branco e começou a falar sobre como deveria ser o procedimento para a execução da renegociação:
  • Qual seu período, Paula?
  • Sétimo – respondeu com certo orgulho.
  • Ah, ótimo! Você já não tem então, vamos ver.. – Ivanete esticou o dedo fino e comprido na lista que ela tinha em mãos – Não tem desconto nas mensalidades, não tem acesso a livros, não tem disponibilização de wi fi, sem atenção especial de professores – ela ergueu os olhos para Paula – confere?
Paula abriu um grande sorriso e balançou a cabeça afirmativamente, completando:
  • Isso mesmo, como o tempo passa rápido né? Parece que foi ontem que me deram um panfleto da Universidade, com um monte de propagandas, benefícios e vantagens e hoje já estão quase todas no passado!
  • Exatamente! e hoje você perde também o direito de frequentar as aulas presencialmente.
  • Sério? – Paula até se levantou de tão animada – por favor, me diga que não vai ter desconto na mensalidade por conta disso?
  • Não terá – disse Ivanete, amigavelmente – as suas mensalidades serão exatamente as mesmas, mas as aulas serão todas de forma virtual. Os descontos serão oferecidos apenas para os iniciantes e para aqueles que vem de fora, para captação daqueles que ainda não conhecem os procedimentos.
  • Que demais! – Paula agora estava muito empolgada – eu nunca acertei tanto na minha vida, dona Ivanete, ao ingressar nessa escola.
  • Ah, tem um detalhe – Ivanete parecia orgulhosa – não garantimos qualidade nesse formato, está bem? Porque os professores vão utilizar a própria internet e as vezes não funciona muito bem, então, caso haja cancelamentos por conta disso, não haverá reposição. O professor que se atrever a repor aulas, certamente será desligado.
  • Sensacional! – Paula já estava eufórica com as novas – e aquela tradição de não oferecer wi fi para os alunos que tem que pesquisar sobre a aula em sala também continua?
  • Com toda certeza Paula. Em time que está ganhando não se mexe!
Paula não cabia em si de felicidade, pois a caminhada até ali não tinha sido fácil, mas estava valendo a pena a cada dia. Agora a qualidade diminuiria, quem fosse novato seria beneficiado, mas veteranos como ela, só teriam mais estresse com coisas inseridas por “contrato de adesão”, que eles não concordaram, mas acabavam sendo obrigados a aceitarem, para não perder o semestre. Paula ainda remoía aquelas informações quando Ivanete interrompeu seus pensamentos:
  • Temos outra novidade também! Sua turma será inserida em uma outra, diminuindo para a escola ainda mais os custos. Não é excepcional?
  • Caramba, espetacular, vocês são geniais mesmo.
  • Pois então, também demitimos o responsável pela coordenação do seu curso, porque ele não quis se enquadrar nesse novo formato. E para que não tenha qualquer reclamação posterior, assina nessa linha aqui – Ivanete apontou um outro contrato denominado “renegociação”.
Paula assinou. Estava satisfeita. Provavelmente naquele novo formato, com aquelas novas regras, ela não conseguiria terminar o curso, mas isso não era problema, porque a sociedade não se importava mais com esses títulos bobos de “bacharel”, “mestre”, “doutor”, isso é coisa do passado. O próprio conhecimento científico não importa mais. O que é importante, é dizer que você é, ou foi, estudante. Pronto, tudo resolvido. Porque estudante tem pensamento crítico, entende de economia, de direito, de política, e, mesmo se não entender, não importa, porque ninguém entende também.
Levantou-se da cadeira, o papel que tinha recebido ainda em branco:
  • Ivanete, o que faço com esse papel?
Ivanete sorriu gentilmente:
 – Essa é uma obra de arte que a escola oferece a você, o nome da obra é “Caixa do nada”. Fica tranquila que será acrescido na sua mensalidade deste mês ainda, o custo para produção.
Uma lágrima brotou nos olhos de Paula. O sentimento de realização estava pulsante no peito. Com certeza aquele era um dos melhores momentos da sua vida.
Ao sair da sala, emocionada, Paula deu uma última olhada na mobília, pois sabia que era a primeira e última vez que poderia entrar naquela sala. Não tinha problema, ela estava realizada. Ela fazia parte da minoria privilegiada que fora para o ensino superior. Isso era o suficiente.
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JEFFERSON FARIA

JEFFERSON FARIA

Um realista esperançoso e acadêmico de direito

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Comentários »
  • Joel Costadelli escreveu:
    30/09/2021 às 08h31min

    Estou acompanhando você... Maravilha.

  • Laís Pimentel escreveu:
    27/09/2021 às 22h57min

    Uau! Que texto! O escritor trouxe uma crítica de modo engraçado, mas uma mensagem e tanto para os dias atuais. Parabéns

  • Odair Barros escreveu:
    27/09/2021 às 18h13min

    Infelizmente,.. Tá deste jeito

  • 27/09/2021 às 15h37min

    Retratando a realidade dos dias atuais com um pouco de humor.

  • jones lemos escreveu:
    27/09/2021 às 15h03min

    Vc é uma inspiração. Parabéns jeferson!

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