20/09/2021 às 05h59min - Atualizada em 26/09/2021 às 23h59min

REFLEXÕES RODOVIÁRIAS

Jeferson Faria

O ônibus chacoalhava sem parar, zumbindo feito pernilongo. Era vibração do motor, porque ainda estava estacionado. Os passageiros sentados e silenciosos. Rubens olhava a todos, em pé no fundo do veículo, imaginando qual seria a história de cada um, como e porquê estariam ali naquele momento.

Era interessante pensar em cada pessoa individualmente. Aquela senhora gorda, comendo salgadinho. Aquele senhor de bigode olhando nervosamente pela janela. Aquela moça bonita teclando furiosamente no celular.

Aquele rapaz de chapéu. Quantas histórias por metro quadrado. Alguém ali, aliás, poderia ser um criminoso! Um criminoso perigoso, cruel, maligno.

Se bem que, ninguém parecia capaz de transgredir alguma lei. A não ser aquele homem da poltrona 31. Aquele cara era estranho. Devia ter seus 40 anos, pouco mais alto que Rubens, magro, até elegante.

Era isso! Aquele cara não combinava com o resto do pessoal. Ninguém mais era tão elegante. O contraste era terrivelmente visível. Dos passageiros, aquele sim poderia ser um criminoso.

Algum tipo de vigarista, estelionatário. Com certeza um vigarista. A senhora gorda continuava a comer salgadinhos, como se aquele maldito pacote não tivesse mais fim. Parecia uma mina de salgadinhos, que a senhora devorava vorazmente. O senhor de bigode parecia impaciente agora.

Ora olhava pela janela, ora olhava Rubens. O que aquele senhor poderia querer? Provavelmente queria ir ao banheiro. Mas por que não se levantava logo e ia? De certo era daquele vaidosos que não frequenta banheiro de ônibus. Aliás o banheiro agora estava bom de usar, tinham consertado a alavanca da descarga. Nem precisava de esforço para usar. “Tomara que faça nas roupas, velho besta. Pra quê aquele bigode? Ele nem combinava de bigode!”

A moça do celular olhou rapidamente ao redor e voltou a enfiar o nariz naquela pequena tela. Caramba! Que vício maldito, parece que não consegue desgrudar daquele negócio.

Rubens observava cada detalhe, imaginando qual seria o teor da conversa que tanto entretinha a moça. Certeza que era algum namorado. Não, hoje em dia essas meninas não querem mais saber de namoro. Certeza que era algum desses jovens idiotas que estava flertando com a moça. Flertando? O riso vem leve no rosto de Rubens, afinal, quem ainda fala "flertando"? Nem devem mais saberem o que isso significa. Essa geração só quer saber de tecnologia. Flertar era uma arte na época de Rubens.

O sorriso se abre quando as lembranças invadem a mente dele. Eita! Esse povo de hoje não vai saber nunca como é isso. Rubens olha todos. Todos estão olhando Rubens.

Aquela senhora gorda ainda mastigando seus infinitos salgadinhos. O senhor de bigode. O rapaz de chapéu. A moça do celular. O senhor barrigudo de camisa azul. O cara estranhamente elegante da poltrona 31.

O senhor barrigudo de camisa azul? Parece a camisa de Rubens. Ele parece estar falando com Rubens.

Mas o que...: - ...geiros Rubens? Rubens pisca rapidamente, tentando entender:

- Quantos passageiros Rubens? O barrigudo de camisa azul insiste.

Rubens entende e o barrigudo continua: - Rubens! Já terminou de contar?

- Eu quis começar do fundo para a frente Geraldo - Rubens responde finalmente.

Geraldo, o barrigudo, balança a cabeça: - Ok Rubens. Só faça isso rápido, por que você está aí já faz vinte minutos!

Geraldo virou e desceu do ônibus, Rubens voltou a olhar os passageiros. Ah é, ele fora ali contar. Porque esse era seu trabalho. Era ele quem controlava a lotação.

Ele que tinha contato com a quantidade de pessoas, com a quantidade de histórias. Histórias que ele não sabia, mas que imaginava.

Tipo a do cara estranho da poltrona 31. Porque com certeza aquele cara tinha uma história. Não tinha como um cara vestido daquela forma ser um cara comum. Com certeza era um vigarista que estava viajando para aplicar seus golpes.

Rubens imaginava quais golpes aquele cara poderia aplicar nas pessoas. Pelas roupas que vestia, os golpes eram bem sucedidos. Mas ele nunca enganaria Rubens, porque Rubens já tinha sacado a dele.

- RUUUUUBEEEEENS! QUANTOS PASSAGEIROS?
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JEFFERSON FARIA

JEFFERSON FARIA

Um realista esperançoso e acadêmico de direito

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